O ego que destrói lideranças: quando discordar passa a ser um problema

O ego que destrói lideranças: quando discordar passa a ser um problema

Casos recentes envolvendo líderes e mentores reacenderam um debate cada vez mais presente no ambiente corporativo: o que acontece quando questionamentos deixam de ser vistos como oportunidade de crescimento e passam a ser tratados como ameaça?

Em empresas, mentorias, grupos empresariais e equipes de alta performance, a capacidade de lidar com opiniões divergentes é considerada uma das competências mais importantes da liderança moderna. Ainda assim, episódios que ganham repercussão pública mostram que muitos líderes continuam reagindo a perguntas desconfortáveis como se fossem ataques pessoais, transformando discordâncias em conflitos e comprometendo a confiança construída ao longo dos anos.

Para Fernanda Tochetto, psicóloga, empresária, especialista em desenvolvimento de lideranças e fundadora do Tittanium Club, esse comportamento é mais comum do que parece e costuma ter a mesma origem, o ego.

Segundo ela, a reação a um questionamento costuma revelar muito mais sobre a maturidade emocional de quem responde do que sobre quem fez a pergunta.“Liderança é dar direção, mostrar o caminho, servir e conduzir pessoas, mas principalmente conduzir a si mesmo. Quando o ego assume o controle, o líder deixa de enxergar oportunidades de aprendizado e passa a enxergar ameaças em qualquer divergência”, afirma.

O impacto desse comportamento vai muito além da imagem individual. Em muitas organizações, a dificuldade de lidar com opiniões divergentes cria ambientes onde as pessoas deixam de contribuir, questionar ou apresentar novas ideias por receio das consequências. Quando isso acontece, a inovação perde espaço para a conformidade.

Dados da Gallup mostram que ambientes com maior segurança psicológica tendem a apresentar melhores índices de engajamento, inovação e retenção de talentos. Na prática, isso significa que empresas onde as pessoas se sentem seguras para discordar e fazer perguntas costumam identificar problemas mais rapidamente e tomar decisões melhores.

Para Fernanda, o problema começa quando líderes confundem autoridade com necessidade de validação constante. “A autoridade verdadeira não precisa se defender o tempo todo. Ela é sustentada por resultados, coerência e capacidade de escuta. O ego, por outro lado, exige concordância permanente para se sentir seguro”, afirma.

Com base em mais de duas décadas atuando no desenvolvimento de empresários e executivos, a especialista identifica seis estratégias para evitar que o ego comprometa relacionamentos, oportunidades e resultados.

1.Silenciar para construir, falar para somar

Segundo Fernanda, nem toda reação precisa ser imediata. Muitas vezes, a resposta impulsiva nasce da necessidade de defender o próprio orgulho, e não de contribuir para a solução de um problema ou para o avanço de uma conversa.

“O líder precisa se perguntar se está falando para construir ou apenas para provar que está certo. Em alguns momentos, silenciar é uma demonstração de força e inteligência emocional. Fale se for para somar.”

2.Enfrentar conversas difíceis em vez de evitá-las

Outro erro comum é transformar desconfortos em ressentimentos silenciosos. Para a especialista, tudo aquilo que ocupa repetidamente a mente precisa ser enfrentado, discutido e resolvido antes que se transforme em um problema maior.

“Conversas difíceis têm poder de cura e resolução. O silêncio orgulhoso adoece equipes, relacionamentos e ambientes profissionais. Quanto mais rápido enfrentamos aquilo que precisa ser resolvido, mais avançamos.”

3.Não confundir poder com autoridade

A terceira estratégia está relacionada a uma das maiores armadilhas da liderança. Segundo Fernanda, posição, dinheiro, influência ou visibilidade podem abrir portas, mas não garantem respeito, credibilidade ou permanência.

“Você pode comprar acesso, mas não compra permanência. O poder abre portas. A autoridade faz as pessoas quererem continuar caminhando ao seu lado. O líder precisa lembrar que tudo o que conquista apenas potencializa aquilo que ele já é.”

4.Evitar julgamentos e fofocas

Para a especialista, lideranças fortes não desperdiçam energia administrando conflitos que não lhes pertencem. Ambientes contaminados por julgamentos constantes tendem a enfraquecer a confiança e prejudicar a construção de relações profissionais saudáveis.

“Quem fala de alguém para você provavelmente falará de você para outra pessoa. Julgamentos afastam oportunidades e desgastam relações. O foco deve estar naquilo que precisa ser construído, não em problemas que não são seus.”

5.Resolver problemas antes que cresçam

Fernanda também alerta para os riscos de ignorar sinais de conflito. Segundo ela, líderes eficientes desenvolvem a capacidade de agir rapidamente diante de situações que ameaçam a cultura organizacional, os resultados ou a qualidade das relações.

“O ego costuma adiar conversas porque quer evitar desconforto. Mas quanto mais um problema é ignorado, maior tende a ser o impacto para a equipe e para os resultados. Quando existe fumaça, normalmente existe algo que precisa ser resolvido.”

6.Respeitar ciclos e reconhecer limites

A última estratégia está relacionada à capacidade de compreender que nem todas as situações exigem insistência, permanência ou controle absoluto. Em alguns momentos, a maturidade está justamente em reconhecer que um ciclo chegou ao fim.

“Muitas vezes a melhor oportunidade surge justamente quando aceitamos o encerramento de uma possibilidade. O ego quer controlar tudo. A liderança aprende a reconhecer o momento de seguir em frente e abrir espaço para o novo.”

Na avaliação da especialista, o verdadeiro teste de uma liderança não acontece quando ela recebe aplausos, reconhecimento ou concordância. A prova mais importante surge justamente nos momentos de divergência, quando emoções, inseguranças e convicções são colocadas à prova.

“O verdadeiro teste de uma liderança acontece quando ela recebe uma discordância. É nesse momento que descobrimos se estamos diante de alguém guiado pela autoridade ou pelo ego. Quem não suporta ser questionado dificilmente conseguirá construir equipes fortes, relações duradouras e resultados sustentáveis”, conclui.

 

Sobre Fernanda Tochetto

Fernanda Tochetto é psicóloga, empresária e autora best-seller, com mais de 24 anos de experiência em educação empresarial. Criadora do termo mentalidade de valor, dedica-se a transformar resultados por meio de estratégias que englobam autoridade, vendas e desenvolvimento de ecossistemas empresariais. Fundadora do Tittanium Club, movimento de educação empresarial que utiliza metodologia exclusiva para promover o crescimento pessoal e profissional, e cofundadora da Mentoring League Society (MLS), a maior liga de mentores do Brasil. Atua como mentora de empresários, profissionais da saúde e outros mentores que buscam estruturar negócios escaláveis.

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