Será necessário resgatar um humano corajoso, inventivo e presente

Será necessário resgatar um humano corajoso, inventivo e presente

StartSe RH Leadership Festival 2026 discute como será o trabalho do ser humano na era da produtividade e como a IA e a transformação das pessoas desafiam a execução e reposicionam o RH nas empresas

“A produtividade é o território das máquinas!”, afirmou Piero Franceschi, CEO da StartSe, durante sua apresentação no StartSe RH Leadership Festival 2026, ao explicar que um ambiente no qual a produtividade nas empresas tende a ser capturada pelas máquinas, o valor passa a se concentrar naquilo que permanece essencialmente humano. “Será necessário resgatar um humano corajoso, inventivo e presente”, reforçou Franceschi ao apontar que o futuro do trabalho não será definido pela tecnologia em si, mas pela forma como as organizações redefinem o papel das pessoas nela.

Essas e outras reflexões relevantes foram levadas simultaneamente às palestras e oficinas realizadas durante os dias 26 e 27 de março, no Distrito Anhembi, para uma audiência de 6 mil líderes, executivos e profissionais de Recursos Humanos. Em torno de um cenário cada vez mais presente nas empresas, a dificuldade de executar estratégia e atingir metas em um ambiente de transformação acelerada, a StartSe consolidou o RH Leadership Festival como um espaço de interpretação e tradução das transformações em curso nas empresas, conectando tendências a decisões práticas. À medida que essas mudanças avançam, a próxima edição do festival se projeta como a continuidade de um debate que deixa de ser antecipação e passa a acompanhar um processo já em andamento.

Conduzido por Fábio Neto, sócio da StartSe, o evento partiu do diagnóstico de que as organizações enfrentam mudanças simultâneas em diferentes frentes, que envolvem estratégia, tecnologia, gestão e, principalmente, pessoas. “As empresas estão passando por transformações simultâneas de estratégia, tecnologia, gestão e pessoas, e é essa última que se tornou central para garantir que a estratégia aconteça no dia a dia.”

Impulsionado pela incorporação da inteligência artificial às estruturas organizacionais, o RH passa a ocupar uma posição central nas decisões. A área assume a responsabilidade de traduzir estratégia em prática, sustentar a produtividade e reorganizar a relação entre pessoas e trabalho em um ambiente marcado pela convivência entre diferentes gerações e por uma lógica operacional cada vez mais mediada por sistemas inteligentes.

No primeiro dia, Piero Franceschi, autor best-seller e CEO da escola internacional de negócios StartSe, apresentou uma leitura estruturante para esse momento. Para ele, a disrupção do trabalho não se limita à substituição de tarefas pela inteligência artificial, mas expõe uma crise mais profunda, ligada à perda de sentido da experiência humana no trabalho. Em um contexto em que máquinas avançam em inteligência e autonomia, o centro da discussão deixa de ser produtividade e passa a ser relevância. “O fato cabal é que o trabalho humano está em disrupção. Ele já está acontecendo todos os dias”, afirmou. Para o executivo, o modelo consolidado ao longo do século XX, baseado em repetição, previsibilidade e eficiência mecânica, formou profissionais altamente funcionais, mas pouco preparados para um cenário em que essas mesmas características passam a ser executadas com mais precisão por sistemas automatizados. A questão central deixa de ser quais profissões vão existir e passa a ser qual será o papel do humano em um cenário em que a produtividade se torna domínio das máquinas.

Essa análise se aprofunda com o lançamento de seu novo livro, O trabalho de ser humano, apresentado durante o evento. Na obra, Franceschi propõe um reposicionamento do trabalho a partir de atributos essencialmente humanos. Diante de um cenário marcado por “máquinas com fome de trabalho” e por profissionais cada vez mais desengajados, ele defende a reconstrução da relação com o trabalho com base em elementos como desafio, descoberta e construção de sentido coletivo. “A produtividade é o território das máquinas. Mas, do lado delas, você vai ter que ter humano — corajoso, inventivo e presente.” O livro se apresenta como um desdobramento prático dessa tese, ao oferecer caminhos para lideranças que deixam de atuar apenas como gestoras de processos e passam a assumir o papel de agentes de reconexão entre pessoas, tecnologia e propósito.

O festival também marcou a entrega do primeiro Prêmio Hybrid Skills, iniciativa da StartSe que reconhece organizações que já incorporaram, de forma consistente, a colaboração entre inteligência humana e inteligência artificial. Nesta edição, o banco Itaú foi o vencedor. A premiação destaca empresas que avançaram além da experimentação e passaram a gerar mudanças concretas na operação e na tomada de decisão. A avaliação considera critérios como maturidade na integração entre pessoas e IA, transformação cultural, impacto dos projetos e responsabilidade no uso da tecnologia, com base em diagnóstico de maturidade híbrida e análise dos efeitos no cotidiano do trabalho. O reconhecimento reflete um cenário em que a integração entre humanos e sistemas inteligentes se consolida como indicador de execução e produtividade.

Entre as novidades apresentadas, a StartSe destacou o HR Power Up, jornada voltada ao desenvolvimento contínuo de profissionais de RH, com mentorias, formações em inteligência artificial, relatórios sobre o futuro do trabalho e acesso a uma comunidade de líderes e especialistas. O evento também marcou o lançamento do novo Portfólio Corporate da StartSe, estruturado como um catálogo de soluções que organiza diferentes iniciativas ao longo da jornada de transformação das organizações, da provocação inicial à aplicação prática em decisões, cultura e operação.

O portfólio foi organizado em quatro frentes complementares, transformação estratégica, transformação tecnológica com foco em inteligência artificial, transformação de pessoas e transformação de gestão, que atuam de forma integrada e permitem às empresas iniciar a partir de diferentes pontos, de acordo com seu momento. As soluções combinam programas estruturados e módulos customizáveis, com foco em conectar estratégia à execução e ampliar a capacidade de resposta das organizações em ambientes de maior complexidade.

Nesse contexto, as iniciativas apontam para uma atuação voltada a reduzir a distância entre estratégia e execução, um dos principais desafios discutidos. “O RH que ignora os dados perde voz, e o que não se reinventa passa a ser visto apenas como centro de custo. O próximo passo começa agora: o papel do RH é cuidar do humano enquanto as máquinas passam a fazer parte do trabalho”, afirmou Junior Borneli, fundador da StartSe. Segundo ele, a atuação da empresa tem sido direcionada a preencher lacunas estruturais do mercado e apoiar organizações na transição entre aprendizado e execução, com foco em mudanças concretas na forma de trabalhar e liderar.

O que líderes e especialistas revelam sobre o novo mundo do trabalho

As falas ao longo do evento convergiram para um diagnóstico comum: a transformação do trabalho deixou de ser incremental e passou a exigir uma revisão estrutural das competências, dos modelos de gestão e do próprio papel das organizações. Ao tratar da evolução das habilidades, Milton Beck, Diretor-Geral do LinkedIn para a América Latina, destacou que “até 2030, 70% das habilidades de que a gente precisa no trabalho vão mudar e 25% disso já mudou desde 2015”, reforçando que a fluência em inteligência artificial e a capacidade de aprendizado contínuo passam a ser pré-requisitos para a adaptação profissional. Essa mudança não ocorre de forma isolada, mas pressiona diretamente a forma como empresas operam e tomam decisões, especialmente em um contexto em que, como apontou Christiane Berlinck, CHRO do Grupo OLX, “cerca de 50% das atividades de RH serão automatizadas ou executadas por inteligência artificial até 2030”, exigindo uma transição do uso experimental para uma aplicação estratégica da tecnologia.

Se, por um lado, a tecnologia redefine o que é feito, por outro, a forma como se trabalha passa a depender cada vez mais de fatores humanos. Nesse sentido, a cultura organizacional deixa de ser um elemento periférico e ganha centralidade na performance, como sintetizou Jayme Nigri, cofundador da Reserva: “Quem não entende de gente, não entende de negócio. Cultura não é acessório, é o principal ativo de uma empresa.” Essa mesma lógica aparece na fala de Patrícia Coimbra, Diretora de Gente e Gestão da Porto, ao afirmar que “o futuro do RH não está em escolher prioridades, mas em sustentar paradoxos”, indicando que lideranças precisarão equilibrar, simultaneamente, eficiência e cuidado, tecnologia e cultura, em um ambiente de crescente complexidade. Ao mesmo tempo, a ascensão da chamada IA agêntica amplia esse desafio, como explicou Daniela Zylberkan, CRMO do iFood: “a inteligência artificial não só responde, ela faz”, deslocando a liderança da gestão de pessoas para a gestão de fluxos e processos.

Esse conjunto de transformações também reposiciona o papel das empresas na sociedade. Para Edu Lyra, fundador e CEO da Gerando Falcões, o RH passa a atuar como vetor de impacto ao “conectar pessoas ao trabalho, gerar renda e criar oportunidades reais”, ampliando sua influência para além dos limites organizacionais. Essa visão se conecta ao debate do painel mediado pela jornalista Christiane Pelajo, que reuniu Carolina Dostal, Fernanda Amorim, Liliane Rocha e Caroline Accorsi. O consenso foi que, em um cenário de transformação acelerada, o protagonismo feminino passa menos pela ocupação de espaços formais e mais pela redefinição de como trabalho, liderança e impacto são construídos, em um movimento que exige integrar tecnologia, diversidade e humanização sem aprofundar desigualdades já existentes.

Tudo, ao mesmo tempo

A transformação discutida no palco ganhou forma nas oficinas, onde os temas foram testados na prática. Em sessões conduzidas por especialistas, os participantes foram expostos a diferentes camadas da mudança em curso, do impacto da inteligência artificial no bem-estar e na saúde mental, com Renato Barbosa, fundador da Gria e mentor de IA na StartSe, às discussões sobre confiança como ativo organizacional, com Carol Nucci, co-fundadora e CMO da Conectas e aos novos modelos de inovação aberta aplicados à gestão de pessoas, apresentados por Maximiliano Carlomagno, sócio-fundador da Innoscience Consultoria. A agenda refletiu, na prática, a complexidade do momento, em que tecnologia, cultura e gestão deixam de evoluir em paralelo e passam a se reorganizar de forma interdependente.

Esse mesmo movimento apareceu nas discussões sobre desenvolvimento humano, com foco em competências socioemocionais e na necessidade de redesenhar modelos de trabalho diante de um ambiente mais instável e exigente, com contribuições de especialistas do Instituto Ayrton Senna. Em paralelo, a Sala Platinum reuniu lideranças em um ambiente mais restrito para trocas aprofundadas e conexões estratégicas.

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