Eles criaram uma tecnologia para ajudar empresas a enxergar a margem de lucro e projetam faturar R$ 3,4 milhões em 2026
Fundada por Augusto Lyra e Rafael Stellato, a Everflow transformou um ERP generalista em uma plataforma para prestadores de serviços, chegou a 250 clientes e agora prepara uma nova fase com inteligência artificial
Eles perceberam que milhares de prestadores de serviços administravam operações complexas com a ferramenta errada.
Funcionava assim: enquanto indústrias e varejo já contavam com sistemas desenvolvidos para suas rotinas, empresas de instalação, energia solar, telecomunicações e engenharia precisavam adaptar ERPs criados para outros segmentos e muitas ainda dependiam de planilhas para descobrir quanto realmente ganhavam em cada serviço.
Foi nesse gargalo que os paulistas Augusto Lyra e Rafael Stellato encontraram um negócio. Fundada em 2016, em Santo André, no Grande ABC, a Everflow Tecnologia desenvolveu um ERP que integra as áreas financeira, comercial e técnico-operacional e permite acompanhar receitas, materiais, mão de obra e outros custos para mostrar a rentabilidade dos serviços executados.
Quase dez anos depois, os sócios projetam faturar R$ 3,4 milhões em 2026, crescimento de 50% sobre o ano anterior, e chegar a 250 clientes, alta de 25%. Em maio deste ano, a empresa registrou o melhor mês de vendas de sua história.
Mas o negócio começou bem menor e quase por acaso. Lyra trabalhava com logística e comércio exterior quando decidiu mudar de carreira. A oportunidade veio por meio de Luciano, um antigo professor da faculdade que mantinha uma fábrica de software, a BuiltCode, e o convidou para trabalhar com consultoria de processos e inteligência de negócios.
Foi lá, em 2014, que conheceu Stellato, desenvolvedor que já atuava em tecnologia e alimentava o plano de criar um produto próprio.
“É quando nossas histórias se cruzam. O Rafa já tinha um projeto pessoal de desenvolver um produto, pensando em ser empresário. Começamos a conversar muito. Não era uma época em que se falava tanto de empreendedorismo como hoje”, recorda Lyra.
O antigo professor acabaria dando também o empurrão para o negócio. Ele sugeriu que os dois desenvolvessem um produto dentro da própria BuiltCode, mas com autonomia para serem proprietários. A Everflow nasceu, assim, como uma spin-off da fábrica de software.
A oportunidade estava em um ERP que atendia apenas dez clientes de diferentes setores. Ao analisar a plataforma, os dois perceberam que ela havia sido originalmente criada para uma empresa prestadora de serviços. Em vez de tentar vender o sistema para cada vez mais mercados, fizeram o contrário: decidiram se especializar.
“Percebemos que havia uma oportunidade ali. Em vez de ampliar o sistema para diferentes mercados, poderíamos reconstruí-lo para atender exclusivamente empresas prestadoras de serviços”, explica Augusto Lyra.
A escolha significou abandonar segmentos como clínicas médicas, cantinas e indústrias e praticamente reconstruir o produto, preservando apenas a estrutura do banco de dados original.
O preço da especialização apareceu nos primeiros anos. Durante cerca de quatro a cinco anos, os sócios investiram no desenvolvimento e aprimoramento do software, enquanto as vendas avançavam pouco.
“Nos primeiros quatro, cinco anos, apanhamos. Houve um investimento muito forte no produto, mas, em vendas, estava difícil”, conta Lyra.
A virada começou com investimentos em marketing de conteúdo, comunicação e posicionamento digital. A empresa ganhou espaço nas buscas do Google e passou de cerca de 15 clientes para 200. A equipe, inicialmente formada por três ou quatro pessoas, chegou a aproximadamente 15 profissionais.
Vender muito e ainda perder dinheiro
Ao mergulhar na rotina dos prestadores de serviços, os sócios identificaram um problema que ajudaria a definir o produto: faturamento, dinheiro em caixa e lucro não necessariamente contam a mesma história.
Isso acontece porque receitas e despesas podem ocorrer em momentos diferentes. Uma empresa de energia solar, por exemplo, pode receber 50% ou até 100% de um projeto na venda e somente depois comprar painéis e materiais, pagar funcionários, equipes terceirizadas e demais custos da instalação.
Na prática, uma empresa pode vender cada vez mais, ver o caixa crescer e, ainda assim, acumular serviços com prejuízo.
“É comum o gestor saber quanto faturou, mas não conseguir enxergar quanto realmente sobrou depois que todos os custos daquele projeto foram considerados. Sem essa visão, muitas decisões acabam sendo tomadas no escuro”, diz Rafael Stellato.
Foi a partir dessa dor que a Everflow aprofundou o acompanhamento do resultado de cada serviço. Entre os recursos está o chamado DRE de obra ou DRE de serviço, que cruza informações da operação para mostrar a rentabilidade dos trabalhos executados.
A ferramenta também evoluiu para uma visão mensal: em vez de consultar cada serviço separadamente, o gestor pode reunir as ordens concluídas em determinado período e verificar o resultado operacional daquele conjunto de projetos.
A pergunta que a tecnologia tenta responder é simples: a empresa está apenas vendendo mais ou está realmente ganhando dinheiro com aquilo que vende?
Agora, a próxima aposta é a IA
Depois de quase uma década especializando o software, Lyra e Stellato começam uma nova etapa. O próximo projeto é incorporar agentes de inteligência artificial às diferentes áreas da plataforma.
A ideia é transformar dados operacionais em respostas mais acessíveis ao gestor. No estoque, ele poderá perguntar qual item mais consumiu no último mês, qual teve maior variação de preço ou precisa ter o estoque mínimo revisto. No financeiro, poderá consultar a geração de caixa ou identificar possíveis problemas de fluxo nos próximos 30 dias. O projeto ainda está em desenvolvimento.
“A inteligência artificial faz sentido quando reduz o tempo necessário para encontrar informações e apoia a tomada de decisão. A proposta é que o gestor consiga perguntar à plataforma sobre a situação da empresa e receba uma resposta baseada nos dados da própria operação”, explica Stellato.
A movimentação acompanha um mercado em expansão. Segundo dados da ABES e da IDC apresentados pela empresa, o mercado brasileiro de software e serviços movimentou US$ 35,4 bilhões em 2025. Para 2026, 53% dos executivos brasileiros colocam IA generativa e agentes inteligentes no topo da agenda tecnológica, enquanto 40% das médias e grandes organizações já utilizam agentes inteligentes e outras 33% planejam adotá-los nos próximos 12 meses.
Para os fundadores, a nova fase mantém a estratégia que orientou a empresa desde o início: conhecer profundamente um mercado antes de tentar crescer dentro dele.
“Quando começamos, a nossa preocupação era entender se existia espaço para uma empresa tão especializada. Hoje, o desafio é outro: acompanhar a complexidade que esse mercado ganhou e continuar evoluindo junto com os clientes. Queremos construir uma empresa que conheça profundamente esse setor e que ainda tenha muito espaço para crescer dentro dele”, conclui Lyra.
Sobre a Everflow: https://everflow.com.br/

Deixe um comentário