Entrevista especial com Flávia Melo Vieira Macruz que é CO-FUNDADORA & CEO da ESG DATA CORE – Plataforma de dados sustentáveis com foco em análise de risco ESG, benchmarking e compliance regulatório. Criação de metodologia proprietária para avaliação de maturidade ESG e posicionamento competitivo, além da definição de estratégia de produto e go-to-market, em interação com desenvolvedores, advisors e potenciais clientes.

Entrevista especial com Flávia Melo Vieira Macruz que é CO-FUNDADORA & CEO da ESG DATA CORE – Plataforma de dados sustentáveis com foco em análise de risco ESG, benchmarking e compliance regulatório. Criação de metodologia proprietária para avaliação de maturidade ESG e posicionamento competitivo, além da definição de estratégia de produto e go-to-market, em interação com desenvolvedores, advisors e potenciais clientes.

Revista Empresários  – Quem é Flavia Melo Vieira Macruz e qual foi a sua trajetória até aqui?
FMVM – Sou brasileira, advogada agora com 29 anos mas saí do Brasil aos 22 em busca de expandir minha visão de mundo e entender melhor como gerar impacto em escala global. Hoje já moro no exterior há cerca de 7 anos, vivi em diferentes cidades da Alemanha, onde também concluí meu mestrado em Human Rights Studies in Politics, Law and Society pela Fulda University, e atualmente estou baseada na Irlanda.
Mas mais do que a trajetória acadêmica e profissional, existe um lado pessoal que sempre guiou minhas escolhas. Eu venho de uma família grande, com três irmãos, e cresci com uma forte consciência de que eu tive privilégios e que, de alguma forma, eles precisam ser retribuídos. Esse senso de responsabilidade sempre esteve muito presente na minha vida e acredito que vem muito da minha criação.
Desde muito nova, isso se traduziu em ação.Aos 17 anos, fundei um abrigo para cães no Brasil, que já cuidou de mais de 1.000 animais. Anos depois, durante a pandemia, fundei outra organização voltada a apoiar pessoas em situação de vulnerabilidade em São Paulo. Essas experiências foram fundamentais, mas também me mostraram os limites do impacto quando ele é muito localizado.
Com o tempo, essa vontade de gerar impacto foi evoluindo para algo mais estruturado. Hoje, além da minha formação, também sou certificada pelo CFA em ESG Investing, o que reforça essa ponte entre impacto e tomada de decisão financeira.
Revista Empresários  – De onde surgiu o interesse por sustentabilidade e impacto?
FMVM – O conceito de impacto, para mim, evoluiu muito ao longo do tempo. No começo, ele era mais direto e emocional como ajudar pessoas ou animais em necessidade imediata. Com o tempo, estudando direitos humanos e trabalhando em multinacionais, comecei a perceber que o impacto mais profundo e duradouro não acontece apenas em ações isoladas, mas sim sistêmico: a capacidade de influenciar estruturas maiores que moldam a sociedade, a economia e o meio ambiente.
E dentro desses sistemas, as empresas têm um papel central. Elas influenciam cadeias de produção, decisões econômicas, comportamento de consumo e até políticas públicas. Foi aí que comecei a direcionar minha carreira para entender como transformar impacto em algo estruturado, mensurável e escalável.
Sustentabilidade entra exatamente nesse ponto. Não é apenas sobre preservar recursos ou “fazer o bem”, mas sobre garantir que as decisões de hoje não comprometam o futuro e isso vale tanto para o planeta quanto para os negócios.
Um conceito que traduz muito bem isso é o de dupla materialidade. Ou seja, não é apenas sobre os riscos que uma empresa enfrenta, mas também sobre como as ações dessa empresa impactam o mundo ao seu redor e como esse impacto, por sua vez, retorna para a própria empresa em forma de risco ou oportunidade.
Minha família teve um papel muito importante nessa construção de valores, e também acredito que vir do Brasil, um país com tantas desigualdades e desafios, me deu uma perspectiva muito clara sobre a necessidade de prestar atenção no que está ao nosso redor.
Revista Empresários  – O que te motivou a criar sua própria empresa?
FMVM – A decisão de criar a empresa veio da interseção entre propósito, oportunidade e frustração.
Trabalhando em multinacionais, eu via claramente que existia uma lacuna: empresas falavam sobre sustentabilidade, tinham iniciativas, até coletavam dados mas não conseguiam transformar isso em decisões concretas e ação. Faltava clareza sobre impacto real, riscos e, principalmente, sobre como tudo isso se conecta com o financeiro.
E esse ponto é importante: para que as empresas tornem algo em ação, é fundamental traduzir sustentabilidade em impacto financeiro, mostrar como isso afeta custo, receita e risco. Mas, ao mesmo tempo, não é só sobre dinheiro.
Estamos mostrando um novo caminho. Um caminho onde empresas que não considerarem esses fatores vão perder competitividade seja por perder clientes, fornecedores ou acesso a capital. Hoje, sustentabilidade já impacta diretamente o bolso.
E é por isso que também precisamos de pressão, tanto da sociedade quanto de regulações exigindo produtos mais sustentáveis, estratégias de redução de carbono, gestão de resíduos.
Nós estamos ao lado das empresas nesse processo. Acreditamos no potencial delas e queremos ajudá-las não só a se adaptar, mas a prosperar nesse novo cenário. Mudar de um reporting reativo, pra uma tomada de decisão estratégica baseada em dados.
E assim eu sai da frustração, criei uma empresa porque queria sair de um impacto pontual e construí algo que ajuda empresas a tomar decisões melhores e, com isso, gerar um efeito multiplicador muito maior.
Revista Empresários  – O que exatamente a sua empresa faz?
FMVM – A nossa empresa se chama ESG DATA CORE, estamos fundados na Irlanda e no Brasil e por meio da plataforma Corporate Impact Stewardship (CIS) atuamos como um hub central de dados de sustentabilidade.
A CIS ganhou vida para ajudar empresas a evitar riscos financeiros relacionados à sustentabilidade e a ter melhor desempenho, centralizando métricas fragmentadas entre entidades, departamentos e geografias, transformando-as em inteligência estruturada pronta para auditoria e conformidade regulatória, e permitindo que a liderança detecte seus riscos antes que aconteçam e atue com confiança e estratégia.
Hoje, um dos maiores problemas é a fragmentação dos dados ESG (Environmental, Social and Governance) que estão espalhados entre departamentos, geografias e sistemas. Isso gera ineficiência, custo e, principalmente, falta de visibilidade.
Nós centralizamos esses dados, estruturamos e transformamos em inteligência acionável.
A plataforma funciona em quatro grandes etapas:
● Centraliza dados ESG em um único lugar
● Transforma dados brutos em informação estruturada
● Avalia riscos, impactos e oportunidades em tempo real
● Suporta decisões estratégicas baseadas em dados
Além disso, trabalhamos com módulos como análise de carbono, monitoramento regulatório, benchmarking e análise de risco sempre conectando esses dados com o impacto real no negócio. E tudo isso está sendo construído conectando dados internos da empresa com dados externos, trazendo uma visão muito mais estratégica e acionável.
Revista Empresários  – Para quem não conhece o tema, o que é ESG e por que ele importa?
FMVM – A diferença entre ESG e sustentabilidade é que sustentabilidade é o conceito mais amplo, enquanto ESG é a forma de medir e operacionalizar isso dentro das empresas.
ESG significa Environmental, Social and Governance, ou seja, meio ambiente, impacto social e governança. ESG é uma forma de olhar para uma empresa além dos números financeiros tradicionais. Ele considera como a empresa impacta o meio ambiente (E), a sociedade (S) e como ela é governada (G). Mas o ponto mais importante é: ESG não é sobre “fazer o bem” apenas. É sobre risco e desempenho.
Por exemplo, uma empresa com problemas ambientais pode enfrentar multas ou interrupções operacionais. Uma empresa com problemas sociais pode ter crises reputacionais e afetar ate reputação de talentos. E uma governança fraca pode levar a decisões ruins ou até fraudes.
Ou seja, ESG é uma lente que ajuda a entender riscos que não aparecem no balanço financeiro, mas que têm impacto direto nele. E esse é o segundo nível: empresas que fazem isso bem não apenas evitam riscos, elas criam valor.
Elas reduzem custos operacionais, melhoram eficiência, fortalecem relações com fornecedores, aumentam confiança de investidores e podem até reduzir custo de capital.
Ou seja, ESG não é um custo, é uma alavanca estratégica.
Revista Empresários  – Qual é o principal problema que você vê nas empresas hoje em relação a ESG?
FMVM – As empresas enfrentam muitos problemas relacionados à sustentabilidade hoje. O primeiro que podemos citar é o grande volume de regulamentações sendo implementadas, já são mais de 3 mil globalmente.
Tem o risco de fornecedores, onde por exemplo 90% das emissões de um produto final vem da cadeia de fornecedores, mas esses dados não são visíveis para as empresas.
E claro, temos também os riscos operacionais por conta das tragédias climáticas.
Riscos que geram custos e perda de revenue e que poderiam ser resolvidos se não fosse pela falta de clareza de uma base de dados totalmente fragmentada, gerando risco legal, financeiro e reputacional e um enorme custo operacional.
Sem dados, não existe gestão. E sem gestão, não existe impacto real. E pesquisas mostram que as equipes de ESG gastam de 60 a 80% do seu tempo coletando e limpando dados, sem tempo para estratégia real.
Muitas empresas não sabem:
● Qual é o seu verdadeiro impacto
● Onde estão seus maiores riscos
● Quais oportunidades estão deixando passar
Muitas empresas já coletam uma enorme quantidade de dados ESG, mas esses dados ficam isolados, são difíceis de interpretar e raramente são conectados a decisões estratégicas ou financeiras.
Isso faz com que ESG vire, muitas vezes, um exercício de compliance ou marketing, se tornando algo superficial, quando na verdade deveria ser central para a estratégia da empresa, como uma ferramenta real de gestão de risco e performance.
Revista Empresários  – Como a sua solução resolve esse problema na prática?
FMVM – A nossa abordagem parte de um princípio simples: dados por si só não têm valor, o valor está na interpretação e a nossa solução entra exatamente nesse ponto: transformar intenção em ação baseada em dados.
A plataforma que desenvolvemos conecta dados internos da empresa com dados externos como informações de mercado, cadeia de fornecedores e contexto regulatório.
A partir disso, conseguimos mostrar como um determinado impacto interno pode se transformar em risco ou oportunidade externa.
Por exemplo, uma emissão de carbono não é apenas um número, ela pode representar um custo futuro, uma perda de competitividade ou uma exposição regulatória.
O objetivo é tornar essas conexões claras, para que a empresa consiga agir de forma mais rápida e estratégica.
Nós ajudamos empresas a:
● Estruturar e validar seus dados ESG
● Criar relatórios confiáveis e auditáveis
● Identificar riscos antes que se materializem
● Tomar decisões estratégicas para crescer, reduzir custos e aumentar receita
Mas mais do que isso, ajudamos a construir estratégia.
Porque ESG não é só sobre reportar, é sobre decidir melhor. Ao trazer visibilidade sobre impactos, riscos e oportunidades, permitimos que a empresa evolua de uma postura reativa para uma postura estratégica.
E, no fim, isso não impacta apenas a empresa, impacta toda a cadeia ao redor dela.
Revista Empresários  – Qual é o diferencial da sua empresa em relação a outras soluções no mercado?
FMVM – Nosso grande diferencial começa na intenção. Nós não vemos isso apenas como uma oportunidade de mercado, mas como uma missão real de gerar impacto tanto para empresas quanto para as comunidades ao redor delas.
Isso se reflete em como construímos o produto e nos relacionamos com clientes:
● Buscamos tornar a solução acessível, inclusive para empresas menores
● Priorizamos relacionamento próximo e personalizado
● Desenvolvemos funcionalidades específicas por setor e necessidade
Nós não oferecemos apenas uma ferramenta, atuamos como parceiros estratégicos, trabalhando junto com o cliente para resolver problemas reais.
Além de que, muitas soluções focam apenas em coleta ou report. A nossa abordagem vai além: nós conectamos impacto com consequência. Ou seja, não olhamos apenas para “o que a empresa faz”, mas para “o que isso gera” em termos de risco, custo e oportunidade, considerando o contexto externo.
Além disso, temos uma forte ênfase em análise comparativa — ajudando a empresa a entender sua posição em relação aos concorrentes e ao mercado.
Revista Empresários – Qual é a visão de longo prazo para a empresa?
FMVM – Nossa visão é ir além de uma SaaS tradicional e nos tornar o source of truth (a fonte da verdade) de sustentabilidade dentro das empresas.
Queremos que todos os dados ESG passem pela nossa plataforma — não apenas para organização, mas para geração de inteligência e suporte à decisão.
Também queremos democratizar o acesso. Sustentabilidade não pode ser algo restrito a grandes empresas, ela precisa ser acessível para todos.
Fomos aceitos em uma incubadora na Irlanda, o que reforça nosso posicionamento global, embora também tenhamos presença no Brasil.
E, além da tecnologia, temos um compromisso educacional: ajudar empresas a entenderem o que esses dados significam, de onde vêm e por que são relevantes.
Revista Empresários  – Por que você acredita que trabalhar com empresas é a forma mais eficaz de gerar impacto?
FMVM – Porque as empresas são hoje os maiores agentes de transformação — e também, muitas vezes, os maiores emissores e geradores de impacto.
Se elas mudam, tudo muda.
Elas influenciam e moldam cadeias produtivas inteiras, comportamento de consumo, decisões de investimento e até políticas públicas por meio de lobbying., tendo capacidade de direcionar capital e inovação em escala.
É um efeito em cadeia, quase um loop.
Se as empresas passam a levar sustentabilidade a sério, isso impacta fornecedores, clientes, governos e a sociedade como um todo.
Por isso, acredito que, se queremos mudanças reais e em escala, precisamos começar por elas.
O impacto individual é importante, mas o impacto sistêmico acontece quando conseguimos mudar a forma como as empresas operam e tomam decisões. E é exatamente isso que estamos tentando construir.

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