B.Side Investimentos | Copom: decisão dovish, mensagem hawkish – Comentário da Helena Veronese, economista-chefe da B.Side

B.Side Investimentos | Copom: decisão dovish, mensagem hawkish – Comentário da Helena Veronese, economista-chefe da B.Side

Copom: decisão dovish, mensagem hawkish

O Copom cortou a taxa Selic em 25bps, a 14,5%, em decisão unânime e em linha com o esperado pelo mercado.

O comunicado que acompanha a decisão trouxe poucas mudanças em relação ao anterior. Porém, as que apareceram, mostram uma autoridade monetária mais cautelosa e desconfortável:

a) Cenário externo mais indefinido, com mais dúvidas acerca da duração, extensão e desdobramentos da guerra.
b) Cenário inflacionário claramente pior: o BC deixou de falar de arrefecimento da inflação para falar em aceleração nas medidas subjacentes e *distanciamento da meta*.
c) Projeções do BC: passam de 3,9% a 4,6% em 2026, e de 3,3% a 3,5% em 2027. Ou seja, o BC já trabalha com uma inflação acima do teto da meta neste ano.

Assim como na reunião anterior, não houve guidance. Tampouco houve indicação de fim de ciclo, como parte do mercado chegou a considerar. Ao contrário, o BC limitou-se a afirmar que “o Comitê julgou apropriado dar sequência” ao processo de calibração da política monetária. Adicionalmente, não houve qualquer sinalização sobre o ritmo nem sobre a extensão do ciclo — novidade em relação ao comunicado anterior, quando a autoridade monetária fazia referência apenas ao ritmo de ajuste.

 

O que achamos

O Copom adotou uma postura dovish na decisão, mas hawkish na comunicação. Em um ambiente de elevada incerteza, no qual a trajetória das principais variáveis econômicas depende da duração de um conflito, a autoridade monetária optou por reforçar um tom mais conservador, retomando a ênfase em serenidade e cautela, agora diante de um cenário em que a inflação ganha maior relevância

Nesse contexto, o Comitê buscou preservar flexibilidade na condução da política monetária, evitando qualquer comprometimento com o ritmo ou a extensão do ciclo de cortes. A inclusão explícita da possibilidade de ajustes não apenas no ritmo, mas também na duração do ciclo, reforça uma postura mais aberta e sensível aos dados, especialmente diante da piora das expectativas de inflação e do aumento dos riscos externos.

Assim, embora o processo de flexibilização tenha sido iniciado, sua continuidade ainda deverá ocorrer de forma gradual e condicional à evolução do cenário. Em particular, a dinâmica da inflação, o comportamento do câmbio e os desdobramentos do conflito no Oriente Médio serão determinantes para os próximos passos: quanto mais o conflito durar, menor tende a ser o ciclo; se o conflito encerrar rápido, há mais espaço para um ciclo mais longo.

Mais do que buscar um ciclo longo de cortes, o Copom prioriza, neste momento, a preservação da credibilidade sobre a extensão do afrouxamento.

 

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