Conselhos Consultivos podem preparar PMEs para uma nova fase de crescimento

Conselhos Consultivos podem preparar PMEs para uma nova fase de crescimento

Documento do IBGC sobre governança destaca criação de conselho antes da fase de maturidade empresarial

A descentralização do poder decisório é um dos principais desafios enfrentados por empresas que entram em uma nova fase de crescimento. À medida que o negócio ganha complexidade, concentrar todas as decisões no fundador pode deixar de ser uma vantagem e se transformar em um obstáculo à expansão.

Essa evolução é abordada pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) na publicação Jornada de Governança das Empresas de Capital Fechado, lançada em abril de 2026. O documento destaca que não existe um modelo único de governança e que a estrutura deve evoluir de acordo com as características e o estágio de cada organização.

Para Alexandre Chaves, sócio da Auddas Consultoria, o momento adequado para estruturar um conselho consultivo não pode ser definido apenas pelo faturamento ou pelo tamanho da empresa. O principal indicador é a complexidade que o negócio passou a enfrentar.

“Não é uma questão de tamanho de faturamento, é uma questão de momento. O conselho faz sentido quando a empresa já tem alguma estrutura de operação, mas as decisões estratégicas continuam travadas na cabeça do dono, sozinho”, afirma.

Segundo o especialista, esse ponto de virada costuma aparecer quando surgem desafios que o empresário ainda não enfrentou, como a profissionalização da gestão, a entrada de um novo sócio ou investidor, um processo de fusão e aquisição (M&A) ou mesmo a percepção de que a empresa deixou de crescer no ritmo esperado porque todas as decisões continuam dependendo do fundador.

Da centralização à governança

O modelo de “empresa de dono” pode proporcionar agilidade nos primeiros anos, mas a concentração das decisões tende a se tornar um gargalo conforme aumentam o número de funcionários, a complexidade da operação e os riscos envolvidos.

Diante disso, o conselho consultivo pode funcionar como uma estrutura de apoio à tomada de decisões, sem substituir a gestão executiva. Seu papel é trazer uma perspectiva externa, provocar o empresário a analisar diferentes cenários e criar disciplina para o acompanhamento da estratégia.

“O principal é tirar o dono da solidão da decisão. Depois vem o ritmo: empresas sem conselho resolvem tudo no improviso; com conselho, passam a ter cadência de revisão estratégica”, explica Chaves.

O especialista ressalta, porém, que o conselho consultivo possui limites claros. Diferentemente de um conselho de administração estatutário, ele não tem poder deliberativo vinculante. Sua influência depende da adesão do empresário e da relação de confiança construída entre os participantes.

Por isso, o colegiado também não deve assumir funções operacionais. A execução permanece sob responsabilidade dos gestores da empresa, enquanto o conselho concentra-se em temas como estratégia, alocação de capital, governança, sucessão, gestão de riscos e definição de papéis e processos decisórios.

Composição deve complementar o empresário

A escolha dos conselheiros é outro fator determinante para a efetividade da estrutura. Para Chaves, um dos erros mais comuns é formar um colegiado exclusivamente com base em currículos técnicos.

“Composição que complementa o dono, não que o espelha”, resume.

Na avaliação do especialista, profissionais com experiência financeira, jurídica ou executiva agregam conhecimento importante, mas o conselho também se beneficia da presença de pessoas que já tenham vivido os desafios de administrar um negócio próprio.

“Um colegiado equilibrado mistura essas duas bagagens, a técnica e a de quem já viveu os ciclos de ser dono”, afirma.

A diversidade de experiências amplia o repertório disponível para a tomada de decisões e permite que o empresário tenha contato com perspectivas diferentes das encontradas no cotidiano da operação.

Conselho precisa acompanhar decisões

A efetividade do colegiado também depende da forma como as reuniões são conduzidas. Para Chaves, encontros sem preparação e acompanhamento podem transformar o conselho em uma estrutura meramente formal.

A recomendação é trabalhar com uma pauta enxuta, concentrada em poucos temas estratégicos, e distribuir previamente os materiais necessários para a análise dos assuntos. Dessa maneira, o encontro pode ser dedicado à discussão e à tomada de decisão, em vez de consumir tempo com apresentações sobre a situação da empresa.

Outro ponto essencial é acompanhar, nas reuniões seguintes, o que foi definido anteriormente.

“Conselho que não cobra o que foi decidido na reunião anterior vira reunião social, não conselho”, afirma.

A periodicidade, por sua vez, deve acompanhar o momento e a complexidade do negócio. Em empresas em fase de estruturação, encontros mensais ou bimestrais podem ajudar a construir e testar o planejamento. Organizações menores, com pautas mais enxutas, podem trabalhar com reuniões trimestrais, enquanto empresas maiores tendem a exigir uma cadência mensal.

Governança ganha peso em momentos decisivos

Além de contribuir para a estratégia, a estrutura de governança pode se tornar um ativo quando a empresa precisa se relacionar com agentes externos. Segundo Chaves, a existência de processos de governança sinaliza maior maturidade para investidores, instituições financeiras, potenciais compradores e também para profissionais que a companhia pretende atrair.

Esse aspecto ganha relevância especialmente em movimentos como captação de recursos, contratação de dívida ou operações de M&A, nos quais a capacidade de demonstrar organização, clareza na tomada de decisões e gestão de riscos pode influenciar a percepção de terceiros sobre o negócio.

Mais do que criar uma estrutura formal, portanto, o desafio está em construir um conselho capaz de melhorar a qualidade das decisões. Para Chaves, o valor do colegiado está justamente em combinar experiência, método e acompanhamento para que o empresário deixe de depender exclusivamente da própria visão.

A mudança não significa retirar do fundador a responsabilidade pelo negócio, mas criar um ambiente estruturado para que decisões estratégicas sejam discutidas antes de serem colocadas em prática. Em empresas que começam a enfrentar desafios maiores do que aqueles conhecidos pelo próprio fundador, esse processo pode representar uma transição importante entre a gestão centralizada e uma organização preparada para uma nova etapa de crescimento.

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