Só 18% das empresas transformam IA em resultado real – Por : Eduardo Mecking, Head of Microsoft Alliance for Americas na Beyondsoft
Segundo levantamento do Federal Reserve, apenas 18% das empresas utilizam inteligência artificial de forma efetiva em suas operações. O dado desmonta a ideia de que a tecnologia já está consolidada no ambiente corporativo e expõe um movimento mais preocupante. A adoção tem sido guiada por pressão competitiva e não por necessidade concreta. Em vez de responder a problemas específicos, muitas empresas passam a incorporar ferramentas sem definir onde elas geram valor, o que transforma investimento em custo recorrente sem retorno claro.
Essa falta de direção aparece nos resultados. Levantamentos indicam que menos de 30% das iniciativas geram impacto financeiro relevante. O ponto central não está na capacidade técnica das soluções, mas na forma como são introduzidas. Projetos começam sem meta definida, sem indicador de desempenho e sem conexão com áreas críticas do negócio. Quando isso acontece, qualquer ganho pontual perde relevância porque não altera a estrutura de receita ou eficiência. A consequência é previsível. A tecnologia vira um experimento contínuo, mantido mais por expectativa do que por evidência.
Em muitas empresas, não há um plano claro para capturar valor com inteligência artificial. Não se trata de testar hipóteses com método, mas de operar sem critério. Ao antecipar a adoção sem definir o problema, as empresas invertem a lógica de decisão. Em vez de usar tecnologia para resolver gargalos, passam a buscar gargalos que justifiquem o uso da tecnologia. Isso distorce prioridades e desloca recursos de áreas que sustentam o resultado.
O custo desse desvio é direto, mesmo quando não aparece de forma imediata nos relatórios. Quando iniciativas não estão conectadas a objetivos de negócio, o ganho dificilmente se materializa. Equipes são mobilizadas, orçamento é consumido e o retorno não se concretiza. Em um ambiente de capital mais restrito, esse tipo de aposta perde espaço rapidamente. Não por falta de potencial da tecnologia, mas pela forma como ela é aplicada.
Outro efeito desse movimento é a substituição de soluções simples por estruturas mais complexas e menos eficientes. Processos que poderiam ser resolvidos com ajustes operacionais ou integração de sistemas passam a ser tratados como problemas tecnológicos sofisticados. Essa escolha não apenas eleva o custo, mas também aumenta o tempo de implementação e reduz a previsibilidade de resultado. Ao tentar sofisticar o que não exige sofisticação, empresas ampliam o risco operacional sem ganho proporcional.
A discussão, portanto, não é sobre adotar ou não inteligência artificial, mas sobre como interromper um ciclo de decisões mal fundamentadas. Enquanto a tecnologia continuar sendo incorporada sem objetivo claro, o padrão será de baixo impacto e alto desperdício. O caminho mais direto não passa por acelerar a adoção, mas por restringi-la a casos em que há problema definido, métrica objetiva e expectativa concreta de retorno. Fora disso, o que se apresenta como inovação tende a operar apenas como custo disfarçado.
*Engenheiro Eletrônico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com MBA em Gestão de Negócios e MBA em Finanças pela IBMEC, Eduardo Mecking atua na área de tecnologia há 31 anos. Fundou a 4MSTech, empresa especialista em infraestrutura e soluções de computação em nuvem que foi adquirida em 2023 pela Beyondsoft, empresa global de Tecnologia da Informação (TI) com mais de 30 mil funcionários. Ex-executivo de grandes corporações como Motorola e Microsoft, desde 2023, ocupa o cargo de Head of Microsoft Alliance for Americas na Beyondsoft

Deixe um comentário