Sua empresa consegue sair da nuvem contratada? Por Lucas Anselmo, Arquiteto de Soluções na Faiston
Quando se discute a contratação de um provedor de nuvem, as empresas costumam olhar para o que ganham ao entrar, como capacidade sob demanda, serviços gerenciados e prazo menor para colocar aplicações em produção. A saída recebe menos atenção e, no contrato, muitas vezes se resume a uma cláusula de devolução de dados.
O tema, no entanto, passou a fazer parte da rotina das áreas de tecnologia, porque as empresas redistribuem cargas entre nuvens públicas, nuvem privada e data center próprio com mais frequência, por custo, exigência regulatória, aquisição de outro negócio ou decisão de reduzir a concentração em um único fornecedor.
A 15ª edição do State of the Cloud Report, estudo divulgado pela Flexera neste ano, e realizado com 753 profissionais técnicos e executivos, dos Estados Unidos e Europa, aponta que ao menos 73% das organizações operam ambientes híbridos, 3 pontos percentuais a mais que na edição anterior, e a parcela de cargas de trabalho e de dados que as empresas trouxeram de volta da nuvem cresceu 2 pontos percentuais em cada caso. O estudo mostra ainda que entender as dependências entre aplicações e avaliar a viabilidade técnica são os dois desafios mais citados na migração de cargas para a nuvem pública, e que boa parte das organizações usa serviços gerenciados do provedor, como o data warehouse em nuvem pública, presente em 71% delas.
O mapeamento de dependências, que os respondentes apontam entre as maiores dificuldades da ida para a nuvem, pesa da mesma forma na saída, com o acréscimo dos serviços gerenciados que a aplicação passou a consumir do provedor. O custo de transferir os dados mudou, porque grandes provedores de nuvem pública passaram a devolver em crédito a tarifa de saída de quem migra para outro ambiente pela internet, mediante pedido formal e dentro do prazo de cada programa.
Em alguns casos, o provedor exige que o cliente encerre todo o uso do serviço, o que deixa a saída parcial fora do benefício, e o crédito não alcança a transferência por links dedicados. Mesmo quando vale, o crédito não cobre o trabalho de reconstruir no destino o que o provedor entregava como serviço nem o período em que os dois ambientes funcionam em paralelo.
Saída da nuvem começa pelo inventário de dependências
O teste de saída parte de um inventário que vai além da lista de máquinas virtuais, porque o prazo de uma mudança depende dos serviços que cada aplicação consome do provedor, como banco de dados gerenciado, filas de mensagens, funções sem servidor, armazenamento de objetos e ferramentas de análise. Um banco relacional com motor de código aberto migra com ferramentas de replicação conhecidas, enquanto um data warehouse proprietário ou uma função que a equipe escreveu para o modelo de eventos de um único provedor exige reescrita de código, de consultas e de rotinas de carga.
A forma como a equipe montou o ambiente também pesa no prazo, porque, quando mantém a infraestrutura em código, a equipe tem um inventário versionado do ambiente e reaproveita a organização dos módulos, embora precise reescrever as definições de recursos para o provedor de destino; quando o ambiente cresceu por configurações manuais no console, o inventário precisa começar pelo levantamento do que existe, incluindo redes, regras de firewall e certificados.
A criptografia entra no mesmo planejamento, porque o dado que o provedor cifra em repouso sai legível para quem tem permissão de leitura, mas cópias de segurança, snapshots e campos que a aplicação cifra com chaves do serviço de gerenciamento de chaves só se abrem dentro do provedor, que em geral não permite exportar essas chaves. A equipe precisa restaurar e exportar esse material antes do fim do contrato, cifrar tudo de novo no destino com chaves sob controle da empresa e conferir a integridade do conteúdo por contagem de registros e somas de verificação antes de desligar a origem.
Teste de saída da nuvem mede prazo e custo em um sistema representativo
Nos bancos e nas demais instituições que seguem a regulação do Conselho Monetário Nacional para contratação de nuvem, a saída é requisito de contrato: o acordo para serviços relevantes precisa prever, em caso de extinção, que o prestador transfira os dados ao novo prestador ou à própria instituição e só exclua o conteúdo depois da transferência e da confirmação de que o destino recebeu os dados íntegros e disponíveis.
A mesma norma pede que as políticas de gerenciamento de riscos definam, na continuidade de negócios, os procedimentos a seguir em caso de interrupção do serviço de nuvem contratado, com cenários de substituição do fornecedor e de restabelecimento da operação, e o teste de saída oferece uma evidência de que esses procedimentos funcionam, o que serve de referência para outros setores.
Para produzir essa evidência, a equipe pode partir de um sistema de porte médio, com integrações ativas e uma base de dados representativa, e reproduzir esse sistema em outra nuvem pública, em uma nuvem privada ou no data center próprio.
Quando a base contém dados pessoais, o teste deve usar dados anonimizados ou ocorrer sob os mesmos controles de acesso da produção, como pedem os princípios de segurança e de necessidade da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. O objetivo é medir o tempo de cada etapa, da exportação dos dados à autenticação dos usuários no destino, e registrar o que precisou de ajuste manual.
No custo, o teste soma a transferência de dados, a infraestrutura duplicada enquanto os dois ambientes convivem, as horas de engenharia para reescrever integrações e serviços e as licenças de software que a empresa contratou por meio do provedor, que nem sempre acompanham a carga para outro ambiente.
Como os provedores reservam o crédito a quem está deixando o serviço, a empresa paga a tarifa normal de transferência no teste parcial, e esse valor entra no orçamento do exercício. O resultado indica se a migração completa cabe no prazo do crédito ou se o plano precisa começar antes do pedido.
A equipe precisa repetir o teste a cada serviço gerenciado, integração ou provedor de identidade que incorporar à arquitetura, além dos intervalos fixos do plano de continuidade. Os resultados orientam a negociação do contrato, que deve definir o formato e o prazo de devolução dos dados, o apoio técnico do provedor durante a transição e o documento com que o provedor comprova a exclusão dos dados depois da migração.
Uma empresa sabe que consegue sair da nuvem contratada quando registrou no plano de continuidade o prazo e o custo que um teste recente mediu, e quando esse teste mostrou que a operação continua a atender clientes e usuários durante a troca, com acesso ao próprio histórico e sem ajustes improvisados.
Sobre a Faiston
Fundada em 2001, e com um novo posicionamento de mercado desde 2021, a Faiston é uma integradora de serviços e soluções 100% nacional. Com sede em São Paulo, a empresa conta com mais de 300 funcionários e 5.500 parceiros de tecnologia em todo o Brasil. Para saber mais, acesse: https://faiston.com

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