Como uma empresa de 50 anos deixou a gestão intuitiva para crescer com inteligência operacional

Como uma empresa de 50 anos deixou a gestão intuitiva para crescer com inteligência operacional

Tecnologia muda a forma como empresas familiares atravessam gerações

Existe um padrão que se repete na história dos negócios. Empresas líderes durante décadas deixam de existir não porque perderam clientes de um dia para o outro, mas porque demoraram a perceber que o mercado havia mudado. A prova está em marcas que já dominaram seus segmentos e acabaram atropeladas pelas mudanças. A Blockbuster ignorou o streaming. A Livraria Saraiva não conseguiu acompanhar a transformação do varejo. Kodak, Nokia e tantas outras seguiram o mesmo roteiro, pois tinham marca, tradição e mercado, mas não conseguiram transformar a própria forma de operar.

No mercado imobiliário, onde muitas empresas nasceram como negócios familiares, perfil que representa mais de 90% das empresas brasileiras (Sebrae), e só 30% chegam à segunda geração (PwC), esse desafio começa a ganhar força. Mais do que encontrar novos clientes, a sucessão entre gerações passou a depender da capacidade de modernizar processos, adotar tecnologia e profissionalizar a gestão.

Essa tendência acontece em um momento particularmente desafiador para o setor, pois, mesmo em um cenário de juros elevados, o mercado imobiliário brasileiro vendeu 102.485 imóveis residenciais novos no primeiro trimestre de 2025, um crescimento de 15,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, foram lançadas 84.924 unidades, alta de 15,1%, segundo levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC); foram lançadas 97,8 mil unidades residenciais apenas no primeiro trimestre de 2026. Em São Paulo, principal mercado do país, as vendas acumuladas em 12 meses chegaram a 114,8 mil imóveis, movimentando R$ 59,1 bilhões.

Para Renata Paula Armellini, diretora do Grupo Edmur, empresa que atua há mais de 50 anos nos segmentos de compra, venda, locação, incorporação e desenvolvimento imobiliário, a troca de comando entre gerações passou a ser, cada vez mais, uma disputa entre dois modelos de gestão: o baseado na experiência acumulada e o orientado por dados. “Crescer deixou de depender apenas de bons corretores ou de uma carteira consolidada de clientes. Eficiência operacional, velocidade de decisão e inteligência sobre o próprio negócio passaram a pesar tanto quanto localização e portfólio”, destaca.

Foi justamente essa leitura que levou o Grupo Edmur, imobiliária que fica em Santo André (SP), a transformar o processo de sucessão em um projeto de modernização.

“Muitas organizações acumulam décadas de experiência, mas precisam transformar esse conhecimento em processos, indicadores e uma gestão preparada para os próximos ciclos de crescimento. A tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta operacional e passou a ser um fator de sobrevivência”, explica Renata Paula Armellini.

Quando a segunda geração da família assumiu a gestão, hoje comandada pelos irmãos Renata Paula Armellini e Sandro Armellini, a prioridade não foi expandir a operação nem abrir novas unidades. O primeiro passo foi entender como a empresa funcionava por dentro. “A gente percebeu que conhecia muito o mercado, mas conhecia pouco os nossos próprios processos. Muitas decisões dependiam da experiência das pessoas e quase nada era medido”, afirma Renata.

A partir desse diagnóstico, a empresa iniciou uma reorganização da operação. O Grupo Edmur passou a integrar áreas antes isoladas por meio de ferramentas de automação, adotar indicadores para orientar a tomada de decisões e documentar processos que, até então, dependiam do conhecimento individual dos colaboradores.

“O maior ganho não foi simplesmente adotar tecnologia, foi conseguir enxergar a empresa. Quando começamos a acompanhar indicadores, ficou muito mais claro onde estávamos perdendo tempo, onde havia oportunidades de crescimento e quais decisões precisavam ser tomadas”, conta a diretora do Grupo Edmur.

A mudança alterou também a estratégia do negócio. Em vez de atuar apenas na compra, venda e locação de imóveis, a empresa reorganizou diferentes atividades que já desenvolvia ao longo dos anos e criou o Grupo Edmur, reunindo operações de incorporação, reformas, imóveis de alto padrão e estudos de viabilidade imobiliária. A estrutura permitiu diversificar receitas e reduzir a dependência de um único segmento.

Para Filipe Bento, fundador do Atomic Group, e do AGC (Atomic Growth Club) consultoria especializada em estratégia, gestão e aceleração de empresas, que acompanhou esse processo, esse tipo de transformação deve se tornar cada vez mais comum entre empresas familiares. “Existe um equívoco muito frequente de associar sucessão apenas à transferência do comando. O verdadeiro desafio é preparar a empresa para competir em um mercado completamente diferente daquele em que ela nasceu. Isso passa por tecnologia, governança, indicadores e uma gestão menos intuitiva.”

Segundo ele, a experiência construída pelos fundadores continua sendo um ativo importante, mas deixou de ser suficiente para sustentar o crescimento. “A segunda geração tem uma vantagem importante: ela consegue enxergar a empresa sem o apego de quem a construiu. Quando esse olhar se combina com a experiência dos fundadores, surgem mudanças que dificilmente aconteceriam de outra forma. A sucessão deixa de ser apenas uma troca de comando e se torna uma oportunidade de reinventar o negócio para os próximos anos.”

Esse movimento já pode ser observado em diversos setores da economia. Da indústria ao varejo, passando por serviços e construção civil, empresas tradicionais vêm substituindo estruturas baseadas exclusivamente na experiência por modelos apoiados em dados, automação e inteligência operacional.

No caso do Grupo Edmur, a sucessão acabou funcionando como um catalisador dessa transformação. Com os fundadores atuando de forma mais estratégica e a segunda geração liderando a operação, a empresa passou a tomar decisões menos baseadas em percepção e mais em informação.

“A principal lição talvez seja a mesma deixada por tantas empresas que ficaram pelo caminho é que o maior risco para um negócio consolidado raramente está na chegada de um novo concorrente. Está na crença de que aquilo que funcionou durante quarenta anos continuará funcionando pelos próximos quarenta”, diz a diretora.

Com os fundadores hoje mais próximos do conselho e a segunda geração liderando a operação, o Grupo Edmur representa um movimento que começa a se repetir em diferentes setores da economia, e empresas tradicionais descobrem que preservar um legado não significa manter tudo igual, mas adaptar o negócio para continuar relevante nas próximas décadas.

MAIS INFORMAÇÕES

Sobre o Grupo Edmur: https://atomicgroup.com.br/
Sobre o AGC: https://club.atomicgrowth.com.br

Compartilhar este post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *