Para o usuário comum, isso significa que empresas de cripto precisarão demonstrar, de forma mais clara, onde o dinheiro dos clientes está, como ele é movimentado e quais controles existem para proteger esses recursos. Para as plataformas, porém, a mudança traz uma camada extra de complexidade: além de negociar criptoativos, elas passam a depender de infraestrutura financeira local para operar contas de pagamento, liquidar transações em reais, oferecer Pix, lidar com fluxos internacionais e sustentar rotinas contínuas de monitoramento e conformidade.
O desafio é especialmente sensível para empresas cujo núcleo do negócio está na negociação de ativos digitais, e não na operação financeira tradicional. Internalizar toda essa estrutura pode exigir investimento elevado, adaptação tecnológica frequente e interlocução constante com a regulação brasileira. Nesse contexto, a infraestrutura local deixa de ser apenas um suporte operacional e passa a ser parte central da estratégia de continuidade e crescimento dessas companhias.
Segundo Marcelo Bueno, diretor Jurídico e de Compliance do Z.ro Bank, o momento exige das VASPs uma mudança de postura. “O mercado amadureceu e a regulação impõe uma lógica nova: não basta oferecer acesso a criptoativos, é preciso demonstrar capacidade operacional e controles compatíveis com a responsabilidade de custodiar e movimentar recursos de clientes no Brasil. A discussão agora não é mais apenas sobre inovação, mas sobre resiliência regulatória e segurança jurídica.” A empresa está em negociação avançada com duas corretoras de criptoativos internacionais e três nacionais.
Na prática
Uma das saídas encontradas pelo mercado para acelerar essa adaptação tem sido o uso de modelos de Banking as a Service (BaaS), em que empresas reguladas fornecem a camada bancária e de pagamentos para que as VASPs consigam operar dentro das exigências locais sem precisar construir toda essa estrutura do zero. Esse arranjo pode incluir contas individualizadas, liquidação em reais, integração ao Pix como participante indireto/direto, abertura de contas com envio de documentação via API sem precisar mudar o processo atual de KYC, além de suporte a operações internacionais em conformidade regulatória. Esse tipo de parceria tende a ganhar relevância à medida que o cronograma regulatório se aproxima da fase de execução plena.
Em 2025, a Binance, maior plataforma de negociação de criptomoedas do mundo em volume de negócios, anunciou a integração do Pix a sua solução de pagamentos Binance Pay para permitir pagamentos e transferências instantâneas em real utilizando criptomoedas para qualquer pessoa ou estabelecimento comercial no Brasil. A operacionalização dos pagamentos é feita pelo Z.ro Bank, instituição de pagamentos autorizada pelo Banco Central.
“Quando buscávamos um parceiro BaaS para o Binance Pay Pix, precisávamos de um player robusto e que também estivesse aberto a criar algo customizado, específico. Escolhemos o Z.ro, que na época também era um parceiro de processamento Pix para a Binance” afirma João Dunin, ex-diretor de Operações da Binance e atual COO do Z.ro Bank.
Para o executivo, a principal dor do setor hoje é conciliar velocidade de negócio com robustez operacional. “Muitas VASPs cresceram com foco em produto, liquidez e experiência do usuário. Agora, elas precisam adicionar uma camada financeira e regulatória muito sofisticada, sem perder eficiência. O grande desafio é fazer isso dentro do prazo e com operação local efetiva, porque qualquer falha nessa transição pode afetar desde a experiência do cliente até a sustentabilidade do negócio.”
A escolha do parceiro de infraestrutura tende a ser decisiva. Isso porque as exigências não se resumem ao acesso a trilhos de pagamento: envolvem também gestão de risco, prevenção a fraude, políticas de bloqueio cautelar, tempos de liquidação e integração entre o universo bancário e a dinâmica específica dos ativos virtuais. Em um mercado em que experiência do usuário e confiança são ativos centrais, essas definições operacionais podem impactar diretamente conversão, retenção e reputação.
À medida que o prazo regulatório se aproxima, a adaptação à infraestrutura local passa a ser vista menos como uma etapa burocrática e mais como um teste de maturidade para as VASPs que pretendem seguir competitivas no país.
Sobre o Z.ro Bank
Z.ro Bank é uma fintech nascida no Porto Digital do Recife e acelerada pela Endeavor, Itaú e BID. Atua como instituição de pagamento autorizada pelo Banco Central e, nos últimos dois anos, processou mais de R$ 45 bilhões em transações. É reconhecida pelo mercado como especialista em Pix e, durante alguns meses de 2023, processou mais de 5% de todos os Pix de pessoas para empresas no Brasil. Também foi reconhecida e premiada pela revista Exame como a terceira empresa que mais cresceu em Receita Líquida no país em 2024. É o primeiro Banco “developer first”, com todas as APIs abertas, para que grandes empresas possam plugar e moldar as interfaces do seu jeito, customizando fluxos, painéis e relatórios, para melhorar a eficiência de sua gestão financeira.
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