Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital: sobre juros, câmbio e bolsa nesta quinta-feira (22)

Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital: sobre juros, câmbio e bolsa nesta quinta-feira (22)

A Bolsa volta a registrar uma alta forte, em um movimento que combina recuo da curva de juros doméstica, melhora marginal na percepção de risco e, principalmente, entrada relevante de fluxo estrangeiro. A queda dos juros é visível, mas ainda não trouxe as taxas aos níveis observados no início de dezembro do ano passado, o que sugere que existe prêmio ainda a ser comprimido na curva, sobretudo nos vértices intermediários e longos. Esse alívio tende a destravar valor em setores com maior duration e maior sensibilidade ao custo de capital, como varejo, consumo discricionário, construção e outras companhias que sofreram reprecificação após a elevação das taxas.
Apesar de esse “vento a favor” de juros ainda estar em processo, a Bolsa já antecipou parte do movimento e subiu de forma intensa. O fator dominante, aqui, tem sido o fluxo de capital estrangeiro. Quando esse fluxo é volumoso, ele costuma se concentrar em ativos com elevada liquidez e grande capacidade de absorção de ordens, exatamente para reduzir impacto de preço na entrada e preservar a opcionalidade de saída no futuro. Em outras palavras, o investidor estrangeiro, ao alocar um “montante grande”, prioriza papéis nos quais consegue montar e desmontar posição sem deformar o book e sem ficar “preso” por falta de liquidez.
Por isso, o desempenho recente aparece mais concentrado em nomes grandes, maduros e líquidos. Exemplos típicos desse grupo incluem Vale, Itaú e Petrobras, além de Banco do Brasil. No caso de Petrobras, mesmo com a ação nem sempre acompanhando de forma direta o comportamento da commodity no curto prazo, o ponto técnico é que o valuation segue baixo em termos relativos, o que aumenta a atratividade quando há busca por assimetria e liquidez. O mesmo raciocínio vale para bancos grandes: combinam liquidez, profundidade e capacidade de absorver grandes entradas, além de servirem como “proxy” rápida para exposição a Brasil.
Em termos de valuation agregado, a Bolsa brasileira ainda aparenta espaço para reprecificação, justamente porque parte do mercado segue negociando com desconto, e porque a compressão de taxa ainda não terminou. A ressalva técnica é que esse processo raramente ocorre em linha reta: tende a vir em ondas, com realizações, rotação setorial e ajustes conforme a curva de juros reprecifica e conforme o fluxo externo oscila. Ainda assim, a fotografia de hoje é de performance acima de outros emergentes, o que reforça a leitura de que o Brasil tem capturado um prêmio adicional de fluxo e reprecificação.
No câmbio, o movimento continua sendo de apreciação do real, com viés de queda do dólar. Há dois vetores principais: o comportamento do dólar global, que define o pano de fundo, e o diferencial de juros doméstico, que atrai capital para estratégias de carrego. Quando o diferencial remunera bem e há apetite por risco, aumentam as entradas em operações que exploram esse spread, e isso pressiona o dólar para baixo. O câmbio já se aproxima de um patamar mais baixo, e a continuidade do movimento depende, sobretudo, do ritmo e do formato de queda da curva de juros: se a curva continuar cedendo de forma ordenada, o real pode manter a trajetória de valorização; se houver mudança de inclinação, reprecificação abrupta ou redução do diferencial percebido, o câmbio pode perder força e estabilizar ou até devolver parte do movimento. Por enquanto, o quadro segue tecnicamente consistente com tendência de queda do dólar.

Compartilhar este post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *