{"id":17868,"date":"2025-04-27T17:54:03","date_gmt":"2025-04-27T20:54:03","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaempresarios.net\/web\/?p=17868"},"modified":"2025-04-27T17:54:03","modified_gmt":"2025-04-27T20:54:03","slug":"a-fatura-da-exaustao-escala-6x1-cobra-um-preco-alto-da-saude-mental-por-marcos-torati-mestre-em-psicologia-clinica-pela-puc-sp-com-especializacao-em-psicanalise-abordagem-winnicottiana-e-psico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaempresarios.net\/web\/2025\/04\/27\/a-fatura-da-exaustao-escala-6x1-cobra-um-preco-alto-da-saude-mental-por-marcos-torati-mestre-em-psicologia-clinica-pela-puc-sp-com-especializacao-em-psicanalise-abordagem-winnicottiana-e-psico\/","title":{"rendered":"A fatura da exaust\u00e3o: escala 6&#215;1 cobra um pre\u00e7o alto da sa\u00fade mental &#8211; Por: Marcos Torati  Mestre em Psicologia Cl\u00ednica pela PUC-SP, com especializa\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise (abordagem winnicottiana) e psicoterapia focal. \u00c9 supervisor de atendimento cl\u00ednico e professor e coordenador de cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia e Psican\u00e1lise."},"content":{"rendered":"<div class=\"itemIntroText\">\n<p>Psic\u00f3logo analisa os impactos da jornada de trabalho na sa\u00fade mental e se o fim da escala 6&#215;1 pode ser o bastante para melhorar a vida do trabalhador<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"itemFullText\">\n<p>A escala 6&#215;1, comumente utilizada em diversos setores, tem sido alvo de debates crescentes a respeito de seu impacto na sa\u00fade mental dos trabalhadores. Muito al\u00e9m do desgaste f\u00edsico, as longas jornadas e a redu\u00e7\u00e3o do tempo de descanso podem ter consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas profundas a longo prazo.<\/p>\n<p>Segundo um levantamento feito pela Rela\u00e7\u00e3o Anual de Informa\u00e7\u00f5es Sociais (RAIS) em 2022, 65,8% dos trabalhadores brasileiros formais atuam seis dias por semana, sendo que 82% desses colaboradores recebem menos de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos.<\/p>\n<p>\u201cNa teoria, o trabalho deveria ser uma fonte de satisfa\u00e7\u00e3o e prazer, mas, na pr\u00e1tica, a sociedade \u00e9 dividida entre aqueles que mandam, pensam, concebem, inventam e os que obedecem e executam ordens. Se determinadas atividades laborais fossem t\u00e3o toler\u00e1veis e desej\u00e1veis assim, os seres humanos n\u00e3o teriam inventado a estrutura de classes, a explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, a escravid\u00e3o e a robotiza\u00e7\u00e3o\u201d, explica Marcos Torati, psic\u00f3logo, professor e mestre em Psicologia Cl\u00ednica pela PUC-SP.<\/p>\n<p>Primeiramente, \u00e9 importante distinguir o trabalho motivado pelo desejo daquele impulsionado pela submiss\u00e3o. Figuras hist\u00f3ricas como Freud, Marie Curie e Da Vinci dedicaram-se intensamente ao trabalho, encontrando nele uma forma de express\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>\u201cTais trabalhadores eram automotivados, pois, antes de tudo, eram pessoas que encontravam um sentido \u00edntimo em suas atividades profissionais e, por isso, sentiam menos os efeitos das atividades laborais. No entanto, para muitos trabalhadores, a escala 6&#215;1 representa uma realidade imposta pela necessidade de sobreviv\u00eancia, desprovida de significado e autonomia\u201d, comenta o psic\u00f3logo.<\/p>\n<p>Dessa forma, trabalhar seis dias como um exerc\u00edcio da pr\u00f3pria vontade pessoal \u00e9 uma experi\u00eancia absolutamente diferente de se sujeitar mecanicamente a esse ritmo por puro medo do desemprego e necessidade de sobreviv\u00eancia. \u201cIsso pode explicar por que muitos jovens preferem o desemprego a trabalhos desprovidos de significado\u201d, explica Torati.<\/p>\n<p><strong>Qual a jornada de trabalho ideal?<\/strong><\/p>\n<p>A palavra &#8220;trabalho&#8221; deriva do latim &#8220;tripalium&#8221;, um instrumento romano de tortura. Essa etimologia, infelizmente, reflete a experi\u00eancia de muitos trabalhadores que se sentem aprisionados em rotinas castigantes e desmotivadoras.<\/p>\n<p>A escala 6&#215;1 exige uma reflex\u00e3o sobre a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e o valor do tempo livre. \u00c9 preciso questionar a cultura de produtividade a qualquer custo e defender a import\u00e2ncia do descanso e do lazer para a sa\u00fade mental dos trabalhadores. Afinal, o trabalho deve ser um meio de vida e n\u00e3o um fim em si mesmo.<\/p>\n<p>\u201cEm termos ideais, creio que a sugest\u00e3o do fil\u00f3sofo Robert Owen seja proveitosa: 8 horas para trabalhar, 8 horas para dormir e 8 horas para o lazer. Por\u00e9m, o tempo de deslocamento e a jornada de trabalho em casa podem tomar boa parte do tempo dedicado ao sono e lazer, o que para muitos trabalhadores desequilibrada a balan\u00e7a\u201d<\/p>\n<p>Uma pesquisa encomendada pelo Serasa Experian, em 2024, mostra que 8 em cada 10 trabalhadores do pa\u00eds consideram ou j\u00e1 tomaram medidas para reduzir o tempo de deslocamento para o trabalho. Ou seja, isso evidencia que, especialmente em grandes metr\u00f3poles, o tempo de ida e volta \u00e9 um fator que faz parte das reflex\u00f5es dos trabalhadores.<\/p>\n<p>\u201cNesse cen\u00e1rio, a minha preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade dos cidad\u00e3os \u00e9 se a redu\u00e7\u00e3o da jornada de 6&#215;1 e se a regulamenta\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho ser\u00e1 o bastante para que os indiv\u00edduos trabalhem menos e aproveitem mais a vida. Pois, se, por um lado, as legisla\u00e7\u00f5es ajudam a minimizar a explora\u00e7\u00e3o das empresas em rela\u00e7\u00e3o ao trabalhador, por outro, o mesmo pode continuar trabalhando, buscando novas formas para complementar sua renda de forma aut\u00f4noma nas horas livres rec\u00e9m adicionadas\u201d, comenta Torati.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno apontado pelo psic\u00f3logo \u00e9 refor\u00e7ado pela uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho, assim como, pela busca por uma remunera\u00e7\u00e3o digna. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (PNAD) Cont\u00ednua, em 2022, 1,5 milh\u00e3o de brasileiros trabalhavam por meio de plataformas digitais e aplicativos de servi\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cSem d\u00favida, \u00e9 necess\u00e1rio conscientizar e estabelecer recomenda\u00e7\u00f5es que humanizem a rela\u00e7\u00e3o com o trabalho, mas, ent\u00e3o, questiono: por que as pessoas ainda assim continuam trabalhando excessivamente? Em \u00faltima an\u00e1lise, se todo excesso esconde uma falta, o que a compuls\u00e3o a repeti\u00e7\u00e3o deste sintoma nos exige realmente refletir sobre n\u00f3s e o modo de vida da sociedade?\u201d, ressalta ele.<\/p>\n<p><strong>Nossa rela\u00e7\u00e3o com o trabalho<\/strong><\/p>\n<p>Com isso, \u00e9 importante debater a possibilidade de criarmos a longo prazo uma rela\u00e7\u00e3o financeiramente justa e saud\u00e1vel com rela\u00e7\u00e3o ao trabalho. Para Torati, sempre deve-se investigar as motiva\u00e7\u00f5es e as necessidades particulares de cada um, mas, em geral, o papel do psicanalista e do psic\u00f3logo cl\u00ednico \u00e9 ajudar o paciente a compreender que ser um trabalhador n\u00e3o significa se limitar a ser um agente produtivo.<\/p>\n<p>\u201cQuando nos tornamos um ser sem lazer, sem hobby, sem tempo para si, sem amigos e sem sexo porque reserva toda a sua libido apenas para investi-la no trabalho, devemos procurar meios para elaborar essa quest\u00e3o que prejudica a rela\u00e7\u00e3o consigo, com os outros, com o uso do tempo de vida e com o pr\u00f3prio trabalho, gerando exaust\u00e3o, \u00f3dio e rep\u00fadio\u201d, comenta o especialista.<\/p>\n<p>Segundo ele, dentre os desafios, \u00e9 comum o paciente associar sofrimento com direito ao gozo. Por vezes, adoecer de s\u00edndrome de burnout surge como a \u00fanica forma de se autorizar ao descanso sem culpa, uma justificativa psicossocialmente aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cA avalia\u00e7\u00e3o desse tipo de esgotamento requer a considera\u00e7\u00e3o tanto das condi\u00e7\u00f5es de trabalho quanto das tend\u00eancias ps\u00edquicas individuais. Independentemente do cargo, \u00e9 necess\u00e1rio examinar se as horas extras e a vida constitu\u00edda em prol do trabalho vai al\u00e9m do suprimento das necessidades b\u00e1sicas, ou seja, se o seu excesso est\u00e1 relacionado ao medo de ser irrelevante ou exclu\u00eddo socialmente\u201d, finaliza o psic\u00f3logo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Psic\u00f3logo analisa os impactos da jornada de trabalho na sa\u00fade mental e se o fim da escala 6&#215;1 pode ser o bastante para melhorar a vida do trabalhador A escala 6&#215;1, comumente utilizada em diversos setores, tem sido alvo de debates crescentes a respeito de seu impacto na sa\u00fade mental dos trabalhadores. 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